CrossFit Shark City: conheça o Box que treina a Josiane Silva, paratleta de destaque

Josiane Silva está se destacando nas competições de CrossFit. A paratleta nasceu com uma má formação genética e treina no Shark City, cliente CrossX.

Recentemente, foi entrevistada pela Globo e contou o que toda a sua evolução dentro do esporte representa para ela.

Reproduzimos a matéria e você pode ler com detalhes clicando aqui.

Decidimos então entrevistar o Felipe Sampaio, head coach do Shark City, e trocamos uma ideia sobre acessibilidade, os estudos constantes para aprender a lidar com as especificidades de cada aluno e sobre a chegada da Josi no Box.

Confira na íntegra!

Quando a Josiane chegou, você sentiu que o Box estava preparado para recebê-la ou muitas adaptações foram necessárias? Você acredita que os Boxes de CrossFit são inclusivos no Brasil?

Sim, o Box estava preparado, porque com pouco equipamento e unindo conhecimento com criatividade, nós conseguimos oferecer um bom treinamento. Mas para que a Josi tivesse uma melhor progressão dos movimentos, para que ela tivesse mais opções de treino e conseguíssemos oferecer quase o mesmo treino do grupo para ela, fomos atrás de equipamentos mais leves e com uma pegada mais anatômica para as mãos dela.

E acredito sim que os Box de CrossFit no Brasil sejam inclusivos, vejo isso não só na questão de atletas com alguma deficiência, mas também para os diferentes públicos que aparecem e treinam em nossos Box sendo super
bem recebidos.

Além da estrutura física, você se sentia preparado para desenvolver uma paratleta? 

Sempre me senti preparado, mas como qualquer novidade, a chegada dela foi uma surpresa, porque não existe uma cartilha de movimentos do CrossFit para cada tipo de deficiência. Então, tive que me preocupar em dose dupla no planejamento dos treinos. Passou a existir, por exemplo, o Rx e o Rx Adaptado. O treino era o mesmo.

Só você passa os treinos dela ou outros coaches também?

Todos os coaches estão aptos passar os treinos para ela, mas dependendo do tema, do exercício ou do objetivo esperado, debatemos entre nós antes da aula começar.

Ela pratica em grupo ou as aulas são individuais? A chegada dela influenciou a comunidade do Box como um todo? 

Desde o início, ela sempre praticou com todo mundo, sempre quis estar no meio de todos e sempre topou tudo que era proposto.

No início, em suas primeiras aulas houve uma reação positiva da maioria dos alunos, e alguns deles pediam para adaptar os movimentos, muitas vezes sem necessidade.

Mas hoje, por outro lado, todos veem ela como qualquer outra pessoa do grupo e alguns até voltaram a pedir para adaptar os exercícios.

Qual foi o seu maior desafio e quais conhecimentos adicionais você buscou para desenvolvê-la? 

Por não conhecermos ela antes da chegada no Box, acredito que o maior desafio para nós foi não gerar frustração para ela.

Sabíamos que ela estava procurando por um desafio e que ela seria bem recebida, mas não podíamos permitir que, de repente, por ela não conseguir fazer algum movimento, desanimasse.

Então, nunca dizemos que ela não irá conseguir fazer determinado movimento ou impomos o exercício que ela irá fazer. A estratégia é sempre progredir com os movimentos da base até o nível máximo que ela possa atingir com segurança.

E para me preparar melhor, quando houve a primeira e única oportunidade aqui no Brasil do Curso Adaptive Training, me inscrevi imediatamente e foi uma grande experiência.

Vejo que algumas pessoas têm medo, outras acham que é só alterar o treino, mas o universo é muito maior. Uma porque temos a capacidade de dar mais autonomia para esse público e outra porque vai além da biomecânica do movimento, temos que avaliar as variações fisiológicas e, não menos importante, a questão psicológica desses alunos.

Você continua buscando conhecimentos específicos para inclusão de pessoa no Box, com esse e outros tipos de deficiência? 

Sim, a ideia é nunca ficar parado, não acomodar. Hoje, temos outro atleta que o considero como “adaptado”, porque ele possui osteoartrite (popularmente chamado de “artrose”) nos 2 joelhos decorrente de um acidente de moto.

A capacidade de trabalho dele é reduzida por conta disso. Temos a necessidade de melhorá-la, mas não devemos em hipótese alguma gerar uma nova limitação.

Então, converso muito com eles, pego os feedbacks dos treinos, debato com fisioterapeutas e professores mestres no assunto da faculdade da região, leio bastante para sempre oferecer a melhor opção para eles.

E isso é bem debatido no curso da CrossFit, estudamos as necessidades de algumas deficiências, estratégias de treino, de adaptações, a necessidade de não gerar desequilíbrio e até como ensinar uma pessoa a subir em uma cadeira de rodas.

Você sente o impacto que os treinos têm na vida dela? Fica, ainda mais, a sensação de estar fazendo a diferença na vida de alguém?

Ah, sim… apesar dela nunca ter reclamado ou falado que não conseguiria fazer algo nos treinos, a gente percebia que ela era uma pessoa quietinha, tímida.

E hoje a gente vê o quanto ela tem se desenvolvido, também socializado, ela tem dado palestra para outros Box da região, tem se expressado mais nas redes sociais, formado seus grupos de amigos, etc.

Além da história que ela conta nas palestras e entrevistas: ela ficou alguns dias ausentes do treino… Até lembro de fazer aquele contato de coach, perguntando o porquê da ausência. E era por conta de alguns momentos depressivos que estava passando, e logo topou voltar a treinar.

E hoje ela sempre conta que os treinos a ajudaram a sair desse momento complicado.

É sempre muito gratificante saber que podemos fazer a diferença na vida das pessoas só fazendo nosso trabalho com amor e carinho.

E isso que alimenta mais o nosso dia a dia em querer passar mais essa essência para todos os grupos de pessoas.

Qual conselho daria para os Boxes que ainda não estão prontos para receber paratletas?

O conselho é que não tenha qualquer tipo de medo de trabalhar com esse tipo de público e muito menos despreze ou menospreze um treino para eles.

Uma porque eles precisam de nós, e outra porque não podemos aumentar suas limitações. Estude e veja como é gratificante ter um público heterogêneo, cada um com sua história, suas limitações e conquistas.

E se precisarem de alguma ajuda, contem comigo.